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UMA CRÔNICA SOBRE A TORRE



Lá estava, mais um jogo de tarô. As cartas coloridas sobre a mesa e minha cabeça perdida em reflexões. A carta "O Julgamento" está sempre no meu jogo e lá estava ela. Eu não entendo. Acho estranho alguém sempre tirar a carta "O Julgamento" e o mais estranho é que esse alguém estranho seja eu mesma.

E então vejo "A Torre", central na primeira casa, e vou lembrando. O dia recente que dei umas dez topadas, quase quedas, sem entender o motivo. Posso entender com "A Torre": é quase um ruir meu, uma queda profunda. Lágrimas inesperadas diante da televisão, lágrimas inesperadas olhando a lua, numa música. "A Torre" traz essas lágrimas inesperadas e talvez traga mais.

Frágil, trêmula, sou mesmo essa torre tocada pelos raios de Júpiter. A idade não me deu força, deveria ter dado? O tempo só me trouxe mais ternura, muito do que parecia meu o tempo levou. Minha força, coragem, um medo que eu tinha de tudo, tudo foi consumido no trajeto constante do tempo. Esse trabalho do tempo tem a ver com a carta "O Julgamento" no meu jogo, mesmo que eu não entenda. "A Torre" mostra que eu não entendo. E pratico autotortura vendo na televisão um homem caminhar no fio numa altura enorme, batendo recorde. Fico vendo quase sem respirar direito, pior que ficar espremendo espinhas e cravinhos.

"A Torre" também é eu sonhar com um amor de filme ou de novela quando nada indica que ele apareça. Acho que "A Torre" é estar no lugar errado, na hora errada, quase um oposto da carta "O mago", estar no lugar certo, na hora certa. "A Torre" é a falta de ponte, um desfiladeiro, rochas que não estão firmes, um vento que a gente não entende.

"A Torre" é não ter a mínima ideia de que roupa colocar, ter um cabelo com vida própria, bem independente da sua vontade, agir de forma a fracassar diante de si mesmo, viver perdas.

"A Torre" foi o tsunami no Japão, o terremoto no Haiti e outros tipos de catástrofe natural. Na noite do tsunami podia sentir um peso no ar. Sei que é loucura, mas foi assim que senti.

"A Torre" é uma carta que mostra a profundidade do tarô. Ela mostra a face terrível de Deus, ele é plantação, mas também gafanhoto, céu azul, mas também terremoto. A situação com "A Torre" mostra que devemos temer a Deus, senhor dos raios também.

Fecho as cartas. Como quem guarda algo precioso, guardo meu tarô. Mesmo assim a imagem que estou numa torre continua em mim. A torre é alta e me dá vontade de voar. A torre sou eu também e sinto que não sei o que estou fazendo nas suas paredes e silêncios. A torre é em mim onde me ergui, me construí diante do espelho e nas minhas atitudes, onde te espero e talvez você não apareça.

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Denise Astrologia

animadenise@uol.com.br